A fascinação/identificação notável com uma obra artística nem sempre é algo positivo se você pretende escrever sobre esse objeto, essa obra. Passo isso não só na minha vida acadêmica com o filme Container (Lukas Moodysson, 2006), tema do meu TCC em Cinema na UFSC, como na hora de escrever sobre essa canção. O que eu vou falar sobre uma canção que diz tudo? É uma das dificuldades desse blog, o que escrever sobre o que não interessa a ninguém, ou a muito poucos, para um ou dois lerem? E, na verdade, nesse momento me surpreendo em estar conseguindo escrever qualquer coisa, pois sinto camadas e camadas de dor (psicológicas tornadas físicas) em torno do meu corpo, uma esfera de sofrimento que pesa em cada célula do meu corpo, mas toda a dor é tão insignificante que passa e não dá para para passar.
Entretanto, se o que o cantor e compositor George Michael falou há poucos dias atrás em seu twitter (que a música é uma arma muito mais amigável contra a dor e os dissabores da vida do que o tempo, que demora demais e parece sempre distante demais), estamos aqui tentando. Tentando sobreviver a essa existência que na maioria das vezes nos leva junto, anestesiados, mas às vezes dói e é assim mesmo. Tudo bem, fingir que está tudo bem. Ou gritar ao mundo inteiro que está mal e tanto faz, no final das contas dá na mesmíssima merda. E essa música é sobre isso, e sobre toda essa fantasia que o final dessa jornada dura e solitária traz, mas não temos coragem de pedir as contas. Só fica esse teatro real demais que faz com que muitas das vezes ninguém nem mais acredite/dê crédito à sua dor, porque ela já doeu demais. What else is new? Nós não somos super-heróis e toda luta é luta vã.
A linha entre o cômico e o ‘trágico’, como tido pelo senso comum, não existe. Ela é fruto de circunstâncias, momentos, companhias ou falta delas. O duo Insane Clown Posse em seu álbum Ringmaster lida em muitos momentos com canções que podem ser lidas tanto pelo viés do absurdo, da comédia nonsense, do humor pastelão e misógino como também por um viés dos desesperos da idade adolescente. A canção escolhida para figurar nessa postagem do blog é Mr. Johnson’s Head, a quarta do álbum e possivelmente a que mais deixa transparecer os desassossegos de uma idade entre identidades, uma idade formadora mais consciente de tudo o que será.
O sujeito da canção é um estudante, talvez de high school e muito provavelmente estadunidense, digamos que com uma idade que varie um pouco mais ou um pouco menos que a de quinze. Como de costume já que alguém precisa ficar de fora para definir quem está dentro, ele é um outsider, sozinho no período em que a socialização e noção de pertencimento são mais importantes. Os resultados de todas essas circunstâncias vêm a galope, como também não poderia deixar de ser, eventualmente.
Da rejeição em relação à paixão que nutre por uma colega de classe esse rapaz nos segue contando a rotina entediante de um estudante que é obrigado a sentar por horas e horas numa cadeira para ouvir coisas sobre as quais não tem nenhum interesse e o deformam mais do que o formam para qualquer coisa, haja visto inclusive o declarado caráter racista, bitolado e ingênuo do professor cujo crânio dá nome à canção. O personagem da faixa está invisível no meio de tantos outros grupos. Se o desprezo é pior do que o ódio e se é melhor ser criticado do que jamais comentado, então ele se encontra em uma situação limítrofe para a sua sanidade mental. A resposta a essas indagações vem logo em seguida com o refrão: cansado da pressão do sistema escolar, das pessoas e das posições políticas ingênuas e frequentemente nojentas de seus ‘mestres’, ele arrancou fora a cabeça do seu professor Sr. Johnson e colocou-a na sua mochila.
São raros os que prestam atenção além da superfície quando se trata do Insane Clown Posse, e essa canção é uma de várias de sua discografia que questiona visões políticas, históricas e culturais. Em outra canção digna de nota do duo (How Many Times?), o eu-lírico pergunta se tudo isso que se aprende sem interesse, sentado entediado na frente do professor ‘colocará comida no prato’. Tocamos aí em pontos além do que pretendo tratar (tatear, introduzir, como sempre) nessa postagem, em como e em que pontos a educação é conduzida de forma extremamente errada para que cause o desinteresse quase absoluto dos alunos e como isso torna a sociedade como ela é. E até que ponto, inclusive, devemos subordinar a educação à idéia de utilidade? Definitivamente esse é um trabalho que pode ser feito até se pautando nos trabalhos do ICP, mas no qual prefiro não entrar pelo menos nesse momento. De qualquer forma, esse autointitulado nerd é parte dessa massa insatisfeita. À insatisfação com o ensino, contudo, são somadas sua solidão, seu abandono, seu estar à parte e sua sugerida insanidade resultante. Essas circunstâncias juntamente com o bullying (no caso da canção, um bullying por omissão, mais ainda assim bullying) são a clara causa vários massacres em escolas, e é por isso que não culpo esses que, com o personagem dessa canção, simplesmente chegam ao seu limite. Não é que punam ‘quem não tem nada a ver com isso’ pois muitas vezes, como vemos aqui mesmo nessa canção, por omissão e ausência também se peca, e um dia muitos transbordam. E só nesse momento é que eles têm atenção (“in our lifetime those who kill / the newsworld hands them stardom”, como canta Morrissey), só quando o cadáver fede é que notamos a presença em primeiro lugar. No mais, convenhamos, todos nós somos serial killers em pensamento. A diferença está em se – ou quando – as pressões do mundo cão serão um pouco demais, ainda que por um instante, a ponto de frear os freios e exterminar quem não está em extinção.
A canção no YouTube acompanhada da letra logo abaixo, aqui estão:
Sitting in the class with my head on my desk
Teacher’s trying to talk but I could give a fuck less
I’m staring at the freak that I know I’m in love with
But she don’t even know my name it’s always been the same
I just lay my head down and drown in my spit
Nobody even notices I’m here ‘cause I ain’t shit
I’m hearing voices but I don’t know what they saying
Sweat is on my forehead ‘cause my brain’s inside decaying
And this bitch that I love probably don’t have no idea
She’s talking to her friends I’m in the corner and I see her
Something’s happening but it isn’t very clear
Sounds like a bell, sounds like an electric chair
Next thing I know walking in the crowded hall
So many different faces that I throw up on the wall
Some are yelling “sick” and the others stop and stare
But I don’t care, I’m in a hurry going nowhere
See, my head is spinning cuz I’m lonely and I’m twisted
But I have a secret everybody missed it
I’m just a nobody and I think it’s a drag
But I got Mr. Johnson’s head in my bookbag
[Chorus]
I couldn’t stand the pressure, not another day
I didn’t like the fucker Mr. Johnson anyway
I sat up in his class, he hung a rebel flag
I cut the bigot’s head off and I stuffed it in my bag
I wish somebody knew me cuz then they could say I’m wrong
But since nobody knows me I got it going on
I’m staring at the clock, I listen for the tock
I got a couple food stamps folded in my sock
I guess I’m just a ghost cuz everybody walks through me
If I died in class they would probably say they knew me
Or they wouldn’t care, they wouldn’t even move
A dead body rotting in the back of the room
For weeks and months, stinking up the class
Until somebody noticed then they throw me in the trash
I can hear the teacher man talking about Columbus
He nothing but an old dead fuck with a compass
Ran up on a beach and threw everybody off
And then he claimed discovery and now we all applaud
I don’t give a fuck to learn, you’re all going to hell
I’m trapped in mind and my brain is my cell
But I have a key, it’s called insanity
I stick in my brain to unlock eternity
Just a nobody and I think it’s a drag
But I got Mr. Johnson’s head in my bookbag
[Chorus]
“Okay, today we’re gonna learn about A Great Freedom. If you’ll turn
your textbooks to Chapter Four we’ll get started. America’s the
land of the free, all races live together in harmony, and we are all
treated equal, we all live together in the same wealthy community. Yes?”
“Man, Mr. Johnson already taught us this. Ain’t he ever coming back?”
“Uh, uh, he’s, uh, very ill right now.”
No, they can sit and front about it all day
But I left his fucking body in the hallway
And in the morning they opened up the door
And seen his motherfucking carcass laying on the floor
But they would never suspect me I’m just a nerd
I try to speak my word, it always goes unheard
I could chop my arms off and run around the class
I doubt they’d even notice, but I’d be dying fast
Cuz they’d rather learn about redneck chicker
Who owned a couple slaves but I guess it doesn’t matter
Fuck Washington, Benjamin, fuck ‘em all
They can suck my nuts till their wooden teeth fall out
And the class wanna know who could it be
But I’m like Dewey Boodie, you ain’t never heard of me
I’m just a nobody and I think it’s a drag
But I got his motherfucking melon chilling in my bookbag
Sometimes é como um parênteses no meio do que quer que se esteja fazendo antes da canção começar e depois de ela acabar. Uma curta confissão como quem não quer dizer nada, tímido demais para falar ou cantar o que lhe afoga; mas jamais menos sincera. Seu canto, surgido de sussurros, ecoa; como ecoa nossa fala num quarto sem móveis, como ecoam nossas mágoas num corpo vazio.
Não é uma confissão adolescente, dificilmente, mas talvez uma volta a essa adolescência quando ainda se tinha esperança de mudar alguma coisa, de fazer alguma diferença. Velhas ilusões. Às vezes, sim, questionamo-nos. Questionamo-nos se há alguma saída, pensamos em comparação, colocamos em perspectiva. Ou simplesmente observamos. E de fato não há quem possa dizer-me, com sinceridade, que está feliz com o que vê, se de fato enxerga. Às vezes você deve ser, assim, patético também. E depois desligamos, fechamos o parênteses e voltamos, de cabeça baixa, à aceitação. Pois é a vida.
Sometimes Only sometimes I question everything And I’m the first to admit If you catch me in a mood like this I can be tiring Even embarrassing
But you must Feel the same When you look around You can’t tell me honestly You’re happy with what you see Oh sometimes Only sometimes
You must be You must be As embarrassing as me Sometimes
O que faz um bom personagem? Não sei dizer ao certo. Algumas dos meus mais razoáveis palpites são: uma personalidade marcante, falas sagazes e citáveis (pelo menos no Teatro, Literatura e Cinema – e Videogames também, por que não?), um passado que incita a curiosidade. Pouco se fala, pelo menos até onde sei, da construção de personagens na Música, mesmo que seja na parte escrita com palavras e não na melodia em si, ainda que fazer essa distinção seja simplório e perigoso. Do que conheço, existem dois grandes exímios criadores de personagens em letras de música, pelo menos na língua inglesa: são eles Bob Dylan e Mark Kozelek.
O que difere os personagens desses dois não cabe aqui e exigiria uma outra análise, talvez assunto para outro momento – o que interessa mesmo é como esses personagens são criados e o que os torna cativantes. No caso daqueles que vêm de Kozelek, encaixar-se-iam nessa minha última suposição: são aqueles personagens que, por mais que se saiba muito pouco ou praticamente nada sobre eles, parecem-nos muito instigantes. Conseguimos crer na existência desses personagens seja por experiência própria, identificação ou intuição; e conseguimos sobretudo e muito mais importante sentirmos e nos importarmos com esses personagens.
Talvez a linguagem musical que utiliza contribua para isso, mas Kozelek é um cronista de um Estados Unidos desconhecido, de lugares que existem quando você pega a estrada de chão que, árida, se estende escondida para olhos não treinados – à direita enquanto a pista dupla asfaltada segue até onde os olhos enxergam.
Glenn Tipton, nomeada após um dos guitarristas do Judas Priest (o que não deixa de ser um pouco dissonante ao clima geral que a música evoca, mas condizente com todos os personagens que cita que estão ou não no imaginário popular), é uma canção que apela para lugares que talvez sejam comuns, mas pontos fracos nossos de qualquer forma: as saudades. As saudades do pai, com cujo filho e eu-lírico assistia a filmes com Clark Gable de madrugada antes de os anos o levarem embora para outro lugar, saindo de casa. Saudades da senhora que mantinha uma lanchonete até que um dia seu coração simplesmente parou e o lugar nunca foi o mesmo – esses lugares-fantasmas que temos de uma época da nossa vida que não é mais, que hoje são ruínas, mato ou talvez um prédio ou uma filial da Igreja Universal.
Os versos que mais me tocam, contudo, são os dois últimos, aquele em que este eu-lírico conta que enterrou sua primeira vítima quando tinha dezenove anos e, ao vasculhar os bolsos de seus jeans, encontrou cartas escritas por ela que diziam várias coisas e o machucaram imensamente. Como se sente alguém que tira a vida de outro, especialmente assim uma primeira vítima antes de transformar-se em rotina, ao saber por onde se espalhavam algumas de suas raízes, entrelaçando-se à vida de tantas outras pessoas, importante para alguns, conhecida por vários, amados por alguns outros poucos? Não é um medo nem um desespero, mas é um estado de reflexão do efeito que tem quando qualquer coisa ou pessoa se transforma, sai do lugar, deixa de existir. E há uma tristeza, também, sem dúvida, ao pensar em tudo que poderia ter sido, não foi e jamais será outra vez. E que mesmo se acontecesse hoje, não lhe tocaria como naquele tempo.
Ouçam e leiam, caros:
Cassius Clay was hated more than Sonny Liston Some like KK Downing more than Glenn Tipton Some like Jim Nabors, some Bobby Vinton I like ‘em all
I put my feet up on the coffee table I stay up late watching cable I like old movies with Clark Gable Just like my dad does
Just like my dad did when he was home Staying up late, staying up alone Just like my dad did when he was thinking Oh, how fast the years fly
I know an old woman ran a doughnut shop She worked late serving cops But then one morning, baby, her heart stopped Place ain’t the same no more
Place ain’t the same no more Not without my friend Eleanor Place ain’t the same no more Man, how things change
I buried my first victim when I was nineteen Went through her bedroom and the pockets of her jeans And found her letters that said so many things That really hurt me bad
I never breathed her name again But I like to dream about what could have been I never heard her calls again But I like to dream
I Remember é uma canção como muito poucas (a única outra que me vem à cabeça no momento é Spy in the Cab, do Bauhaus) no sentido de como ela me faz sentir – não é exatamente uma sensação inicialmente melancólica, muito mais um medo. Se a melancolia é um sentir falta constante de algo perdido que não se sabe o que é, posso dizer que nessa música sinto um medo de algo que não sei bem o que é tampouco, talvez por isso mais medo. Do que se lembra aquele que se lembra?
A letra é curta, cabe citá-la inteiramente logo aqui:
I remember every number
I remember graduation
I remember painted faces
No they couldn’t believe it was you
I knew
Como diz o nome de um dos álbuns da banda letã Sun Devoured Earth, ‘boas memórias são as mais difíceis de manter’. Pelo concordar ou discordar, acho que vale pensar um pouco nisso. As boas memórias são difíceis de manter porque tendemos a focar nas coisas ruins; ou porque as boas memórias, quando tornam-se tão somente memórias, levam-nos por comparação a estabelecer uma situação atual de desvantagem, de um momento pior, mais doloroso? As saudades do tempo de criança, dos anos da faculdade, de quando não se tinha tanta responsabilidade. Somos esses amontoados de lembranças até que deixamos de ser experiência para sermos apenas lembrança, muitas vezes antes mesmo de morrer.
Ele lembra, mas do que se lembra realmente? Ouve-se, no fundo, o chiado que faz o vinil muito ouvido com os sulcos já muito gastos, aquele barulho de quem já passou por ali muitas vezes, como se este que canta com uma voz frágil, com medo de desafinar, remoesse constantemente essas lembranças, o disco pulando sempre no mesmo momento, gastando toda a superfície.
Ele se lembra, mas são lembranças boas? Existem lembranças boas ou apenas lembranças? Toda boa lembrança um dia causará dor? E há, nisso tudo também, a importância de esquecer, pois quem não esquece de nada seguramente também perderia sua sanidade, é isso o que acontece? Lembrar-se de tudo seria viver constantemente num pesadelo do qual não se consegue acordar jamais, um estágio constante de vigília sem descanso. Todas as dores mantêm-se em carne viva à flor da pele.
Ele diz saber, e então se cala durante toda a segunda metade da canção. Só bate seu coração, soam os sulcos e pairam as memórias, assombrando este eu. Não há mais muito a dizer, ele sabe. Ele se lembra. E talvez tenta lidar com esse avalanche do que foi no que é, invertendo o tempo ou fazendo-o coexistir com todos os outros tempos, todas as lembranças boas e ruins convivendo em uníssono dissonante. E talvez uma lembrança específica da qual ele jamais deveria ter recordado.
Ouçam baixando aqui a canção, em 320kbps: http://www.mediafire.com/?xm6quf069rf88dk
Gloomy Sunday foi composta originalmente por um pianista húngaro (Rezsõ Seress) em 1933 e letrada pelo poeta compatriota László Jávor e atingiu um público bem maior anos depois, em 1941, na voz de Billie Holiday e com uma versão da letra em inglês, versão essa que serviu de base para, seguramente, centenas de covers de bandas e cantores de diversos estilos – jazz (destaque meu para as interpretações de Mel Tormé e da Björk), black metal (destaque para a versão do Negator), eletrônico (Venetian Snares), folk (Elvis Costello), post-punk (Christian Death), a bela interpretação da Sarah Mclachlan, enfim. Existe um exagero comum, uma ‘lenda urbana’, quando se fala nessa canção – acaba vindo acoplada por um verbete como ‘a canção do suicídio’, porque Seress de fato suicidou-se, porque a versão de Billie Holiday foi de fato censurada na BBC. A lenda urbana conta de diversos suicídios em cujas cartas figuravam menções à canção – se é verdade ou não, quem pode afirmar não sou eu; mas no final das contas é irrelevante.
A versão, dentre todas que ouvi, que mais me chamou a atenção foi a de Lydia Lunch, a qual divido aqui com vocês agora:
Assim que ouço os primeiros acordes no piano, logo me vem uma cena muito clara, talvez até comum: uma mulher muito magra de cabelos curtos, lisos e extremamente negros. Ela fuma um cigarro e “the smoke makes a stairway for you to descend” canta Frank Sinatra em Deep in a dream. Então vem sua voz, fraca e exaurida de energia, sussurra depressivamente, sem vontade. Ela pergunta se os anjos ficariam bravos caso ela decidisse acompanhar a pessoa amada para o lugar de onde não se volta, e os instrumentos de sopro choram, desafinados e desesperados, respondendo. Ela abaixa a cabeça, fecha seus olhos e encosta a cabeça sobre a mesa. Ela já sabe o que vai acontecer.
Um detalhe, a meu ver, digno de nota: comparada à versão mais interpretada, Lydia opta (na minha opinião sabiamente) por omitir o último verso que diz:
Dreaming, I was only dreaming
I wake and I find you asleep in the deep of my heart, here
Darling, I hope that my dream never haunted you
My heart is telling you how much I wanted you
Nunca acordamos desse sonho, pois não é um sonho de forma alguma. Esse último verso parece-me como aquele filme cujo final é justamente esse, quase sempre decepcionando profundamente, aqui abrandando e perdendo toda a força da letra. A dor é real (‘the only thing that’s real) e só há uma saída (‘painless’).
Aqui, o que ela de fato canta:
Sunday is gloomy, my hours are slumberless
Dearest the shadows I live with are numberless
Little white flowers will never awaken you
Not where the black coach of sorrow has taken you
Angels have no thought of ever returning you
Would they be angry if I thought of joining you?
Gloomy is Sunday, with shadows I spend it all
My heart and I have decided to end it all
Soon there’ll be candles and prayers that are sad I know
Let them not weep let them know that I’m glad to go
Death is no dream for in death I’m caressing you
With the last breath of my soul I’ll be blessing you
Uma voz chorosa da melodia fúnebre emerge, e começa a contar-nos uma história cujas implicações e circunstâncias nunca ficam evidentes, e sim perdidas no meio da bruma que a canção evoca. A criatura, nascida à iminência da morte do outono, experiencia, aguarda, aplaude e estende amão à iminência da sua morte perante tantas batalhas perdidas e as forças internas que o dilaceram. Aos quatro minutos, algo dentro dele grita, seu desespero audível entre seus esquizofrênicos delírios de grandeza que, no final das contas, apenas retornam ao amargor das lembranças. “As cicatrizes ainda permanecem”, provavelmente auto-infligidas. Coroa-se com uma imortalidade conseguida apenas com o novo início que a morte proporciona, ou apenas a imortalidade da dor. O caminho à glória será infinito, e assim sendo, jamais dará em canto algum. A calmaria volta, mas dessa vez a criatura se cala, inerte, imóvel, morta. As vozes o recebem, e tudo cessa.
I was born under the autumn tree of November My hans were so little and my eyes so small Years have passed by and still i do not know What happened, what became of that infant That laid in a cradle of October leaves
As i look inside my inner cosmos, and open the door
To my soul i can see the battle that rages
Look at the flowers that died, the feeble words Of this sick humanity that wants to take my pride But then there was that voice in the land of dreams Who told me that I am the pillar of a new era
The more i wrote, the more i read, the more I thought Every piece of my dreamland became that [much] clearer From this day forward, i knew who i was…
As the night swallowed my soul I felt the power i behold No one stands up to me anymore I gave my hand in a salute to death…
Stand for me… Bow for me… Bleed for me… Pray for me…
I still remember the pain The wounds forever remain I crowned myself immortal My path to glory shall be endless
I rule the dead… I rule my life… I rule your life… I rule over the red…